
Foi exatamente nesse momento de desconfiança generalizada que o Tesouro Direto ofereceu algumas das taxas mais generosas da sua história. Em dezembro de 2015, era possível encontrar o Tesouro Prefixado 2018 pagando perto de 16% ao ano. O Tesouro IPCA+ 2035, alguns meses antes, chegava a IPCA mais 8% ao ano. Quem comprou títulos nesses patamares, e teve estômago para segurar enquanto o país seguia instável, viu algo curioso acontecer nos anos seguintes: conforme a inflação e a Selic recuavam entre 2016 e 2018, o valor desses papéis subiu de forma expressiva, bem antes mesmo de chegarem ao vencimento.
Isso não foi mágica nem sorte cega. Foi marcação a mercado funcionando a favor de quem entendia o mecanismo, num momento em que a maioria só enxergava risco.
O que é marcação a mercado no Tesouro Direto
Todo título do Tesouro Direto tem uma taxa combinada no momento da compra. Se você levar esse título até o vencimento, essa é exatamente a taxa que você recebe, sem surpresas. Mas antes disso, o preço do título muda quase todos os dias, porque ele está sendo negociado no mercado o tempo inteiro, mesmo quando você pessoalmente não está fazendo nada com ele.
Esse valor recalculado é a marcação a mercado do Tesouro Direto. É o preço que o seu título valeria se você decidisse vender agora, hoje, e ele reflete as condições atuais de juros, não as condições do dia em que você comprou.
Pensa assim. Um título público é uma promessa de pagamento no futuro. O valor dessa promessa hoje depende de quanto o dinheiro rende no mercado no momento presente. Quando os juros caem depois que você comprou, sua promessa antiga, que ainda paga a taxa mais alta de antes, fica mais valiosa aos olhos de quem quer comprar esse papel de você. Quando os juros sobem, sua promessa antiga perde atratividade perto do que está sendo oferecido agora, e o preço cai.
Isso explica a curiosidade que muita gente já teve olhando o próprio extrato do Tesouro Direto: como uma coisa chamada "renda fixa" pode variar de preço quase todo dia? A resposta é que a palavra fixa se refere à regra de remuneração contratada, não ao preço de negociação no meio do caminho.
Como funciona em cada tipo de título do Tesouro Direto
Aqui está o ponto que separa quem entende a dinâmica de quem só se assusta com o extrato. Nem todo título do Tesouro Direto sofre marcação a mercado com a mesma intensidade, e isso depende diretamente de dois fatores: se o título tem uma taxa prefixada e quanto tempo falta para o vencimento. O Tesouro Direto oferece diversas modalidades, como Tesouro Selic, Tesouro Prefixado, Tesouro IPCA+, Tesouro Renda+ e Tesouro Educa+, entre outras, e cada uma reage de um jeito diferente a essa dinâmica. Vamos usar os exemplos mais comuns para ilustrar.
Tesouro Selic é o que menos sofre esse efeito. Como ele é pós-fixado e acompanha a Selic diariamente, seu valor sobe de forma praticamente linear. Isso não significa que não exista marcação a mercado nele, existe sim uma taxinha pequena embutida que também oscila, mas o efeito é tão baixo que, na prática, dificilmente gera perda relevante para quem resgata antes do prazo. É por isso que ele costuma ser a escolha natural para reserva de emergência.
Tesouro Prefixado já reage bem mais, porque a taxa é travada desde o início. Qualquer mudança na expectativa de juros futuros altera o preço desse papel, e quanto mais longo o vencimento, maior essa reação.
Tesouro IPCA+ costuma ser um dos mais sensíveis, principalmente nos vencimentos distantes, porque combina uma parte prefixada com correção pela inflação, e frequentemente tem prazos que se estendem por décadas. Quanto maior esse prazo, medido tecnicamente pelo que chamamos de duration, maior a oscilação de preço diante de qualquer mudança nas taxas de juros.
O mesmo raciocínio vale, guardadas as proporções de cada modalidade, para outros títulos do Tesouro Direto que também carregam algum componente prefixado ou indexado, como o Tesouro Renda+ e o Tesouro Educa+.
O mecanismo por trás da marcação a mercado
Esse mecanismo é simples de entender mesmo sem fórmula nenhuma. O mercado financeiro está sempre reprecificando os títulos do Tesouro Direto com base na expectativa de juros futuros, refletida numa referência chamada curva de juros. Quando essa curva recua, os títulos antigos que ainda pagam taxas mais altas ficam mais desejados, e o preço deles sobe. Quando a curva sobe, o oposto acontece.
Existem duas formas de acompanhar o mesmo título, e entender essa diferença ajuda bastante a interpretar o extrato. A marcação na curva mostra a rentabilidade como se você fosse levar o papel até o fim, uma linha crescente e previsível, sem considerar oscilação nenhuma. Já a marcação a mercado mostra quanto aquele título valeria se você vendesse agora, uma linha que sobe e desce ao longo do caminho, conforme os juros mudam. As duas linhas partem do mesmo ponto na compra e se encontram exatamente no dia do vencimento, é só no meio do percurso que elas se afastam uma da outra. A diferença entre elas só importa de verdade se você decidir vender antes desse dia.
Vantagens, cuidados e como usar isso a seu favor
A grande vantagem de entender como funciona a marcação a mercado no Tesouro Direto é conseguir separar dois momentos completamente diferentes: o susto de ver o extrato balançar, e a decisão real de vender ou não. Quem mantém o título até o vencimento nunca é afetado por essa oscilação, recebe exatamente a taxa combinada no início, ponto final.
O cuidado necessário é justamente o oposto: nunca colocar dinheiro que você pode precisar em breve num título de duration longa, porque se o momento de vender coincidir com uma alta de juros, o resgate pode sair abaixo do que foi investido. Esse foi, historicamente, o erro mais comum entre investidores iniciantes que compraram Tesouro Prefixado ou IPCA+ de vencimento distante sem considerar quando aquele dinheiro poderia fazer falta.
Por outro lado, quem compra título de duration longa exatamente num momento de juros elevados, como aconteceu entre 2015 e 2016, e tem paciência e capacidade financeira para esperar o ciclo virar, pode vender antes do vencimento embolsando um ganho de preço relevante, além do próprio rendimento contratado. É uma estratégia que exige entender o cenário macroeconômico, ter reserva de emergência separada desse dinheiro, e aceitar que o resultado depende de como os juros se comportam no meio do caminho, não é uma garantia.
Vale reforçar um detalhe que costuma passar despercebido. Enquanto você mantém o título na carteira, ele não fica parado, os juros contratados vão se acumulando dia após dia, independente da oscilação de preço que aparece no extrato. Então, quando chega o momento de vender antes do vencimento, o resultado final não é só o efeito da marcação a mercado isoladamente, é a soma dele com os juros que já renderam durante todo o período em que você ficou com o título. Isso funciona a seu favor nos dois cenários. Se a marcação a mercado estiver positiva, o ganho final fica ainda maior, somado aos juros acumulados. Se estiver negativa, os juros já rendidos ajudam a suavizar a perda, o resultado costuma ser menos negativo do que parece quando se olha só a variação de preço isolada.
O cálculo que ajuda a ter previsibilidade
Aqui está uma diferença importante entre título público e renda variável. Numa ação, ninguém consegue estimar com razoável precisão quanto o preço vai subir ou cair diante de um evento específico. Em título do Tesouro Direto, a matemática financeira permite sim uma estimativa bem concreta, através de uma métrica chamada duration modificada.
A duration mede, em anos, o prazo médio ponderado para você receber o dinheiro de um título. A duration modificada, calculada a partir dela, estima o quanto o preço do título deve variar para cada ponto percentual de mudança na taxa de juros:
Duration Modificada = Duration ÷ (1 + taxa de juros)
Variação percentual do preço ≈ − Duration Modificada × Variação da taxa de juros
Vamos aplicar isso a um Tesouro IPCA+ 2050, na modalidade sem juros semestrais, que paga tudo de uma vez só no vencimento. Nesse tipo de título existe um único fluxo de pagamento lá no final, então a duration fica muito próxima do próprio prazo até o vencimento. Estando em 2026, faltam aproximadamente 24 anos para 2050, então vamos usar essa duration de 24 anos, com uma taxa de 7% ao ano, próxima do que o Tesouro Direto tem oferecido nesse tipo de papel atualmente.
Duration Modificada = 24 ÷ 1,07 = 22,4
Isso significa que, para cada 1 ponto percentual de mudança na taxa, o preço desse título deve variar em torno de 22,4%, na direção oposta. Repara como esse número já é bem mais alto do que seria para um título de prazo mais curto, exatamente porque quanto mais distante o vencimento, maior a sensibilidade a mudanças de juros.
Cenário positivo: os juros caem 1 ponto percentual, de 7% para 6%. Variação do preço ≈ − 22,4 × (−1%) = +22,4%. Um título de R$ 1.000 passaria a valer aproximadamente R$ 1.224.
Cenário negativo: os juros sobem 1 ponto percentual, de 7% para 8%. Variação do preço ≈ − 22,4 × (+1%) = −22,4%. O mesmo título cairia para aproximadamente R$ 776.
Note que a mesma mudança de 1 ponto percentual gerou um impacto de mais de 22% no preço, para cima ou para baixo. Isso mostra por que títulos de prazo muito longo, como esse exemplo de vencimento em 2050, guardam tanto potencial de ganho quanto de perda, e por que a decisão de comprar ou vender um papel assim no Tesouro Direto exige mais do que só olhar a taxa oferecida no dia.
Uma reflexão final
A história de 2015 e 2016 mostra bem o que está em jogo. Quem comprou título prefixado ou IPCA+ do Tesouro Direto naquele momento de juros elevados, e teve paciência para atravessar a turbulência, colheu resultados expressivos com a valorização de preço nos anos seguintes. Mas essa mesma dinâmica, no sentido contrário, teria penalizado quem precisasse vender exatamente no pior momento. A diferença entre essas duas experiências raramente é sorte. Na maioria das vezes, é planejamento, conhecimento do próprio horizonte de tempo, e entendimento de como a marcação a mercado realmente funciona.
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Este artigo tem finalidade exclusivamente educacional e informativa. Nenhuma publicação constitui recomendação individualizada de investimento, tampouco substitui uma consultoria personalizada.