Autor
João Guilherme
Consultor de Investimentos, CEA©, MBA em Investimentos & Asset Allocation
Toda vez que o assunto é investir em ações pensando em dividendos, cedo ou tarde alguém pergunta a mesma coisa. Como saber se aquele preço está caro ou barato? Existem várias formas de responder essa pergunta, algumas bem complexas, com projeção de fluxo de caixa e múltiplas premissas. O método Bazin é o oposto disso. É uma fórmula simples, criada nos anos 1990 por um investidor brasileiro, que virou uma das portas de entrada mais populares para quem quer aprender a olhar uma ação com mais critério antes de comprar.
Bazin foi jornalista econômico, passou por veículos como a Gazeta Mercantil e o Estadão, e construiu um patrimônio relevante investindo em ações de empresas boas pagadoras de proventos. Em 1992 ele publicou o livro Faça Fortuna com Ações, Antes que Seja Tarde, onde descreveu de forma simples a estratégia que usava para escolher em que investir. O livro virou referência entre investidores de dividendos no Brasil e é citado até hoje por nomes como Luiz Barsi.
Neste artigo
Quem foi Décio Bazin?
Um dado que chama atenção sobre o Bazin é que ele não era um analista de banco nem tinha um cargo de gestor de fundos. Estudou contabilidade nos anos 1950 e trabalhou como operador de corretora, construindo sua visão de mercado na prática. Isso aparece no livro dele. A linguagem é direta, cheia de exemplo prático e histórias reais, sem o verniz acadêmico que às vezes afasta quem está começando.
O raciocínio por trás do método parte de uma comparação simples, tratar a ação como se fosse um imóvel para alugar. Ninguém compra um imóvel só porque ele está bonito, o cálculo passa por quanto esse imóvel rende de aluguel em relação ao preço pago por ele. Foi essa lógica que Bazin transportou para o mercado de ações.
O que é o método Bazin?
O método Bazin é uma estratégia de seleção de ações voltada para quem quer construir uma carteira de dividendos. Ele não tenta descobrir o valor justo teórico de uma empresa como fazem os modelos de fluxo de caixa descontado. A proposta é mais prática. Ele define um preço máximo que você estaria disposto a pagar por uma ação, considerando quanto ela historicamente devolve em dividendos.
Esse preço máximo é o que ele chamou de preço teto. Enquanto a ação estiver sendo negociada abaixo desse valor, ela está, pelo critério de Bazin, dentro de uma faixa de compra interessante. Acima disso, o retorno em dividendos deixa de compensar o risco, na visão do método.
A fórmula do preço teto
A conta que Bazin propôs é simples de fazer, e é isso que torna o método tão popular até hoje.
Preço teto = dividendos pagos nos últimos 12 meses ÷ 6%
O número 6% não foi escolhido por acaso. Era o dividend yield mínimo que Bazin considerava aceitável para uma ação entrar na carteira. Ele construiu essa referência observando o retorno de outros investimentos considerados seguros na época e definiu esse patamar como sua régua mínima de exigência.
Na prática, o cálculo responde a uma pergunta só. Dado o quanto essa empresa historicamente distribui em dividendos, qual é o preço máximo que eu pago hoje para meu retorno anual em proventos não cair abaixo de 6%?
Os critérios completos do método
Aqui está um ponto que muita gente pula quando fala do método Bazin na internet. A fórmula do preço teto é só uma parte da estratégia. Bazin também estabeleceu filtros para escolher quais empresas mereciam entrar nessa conta, e ignorar esses filtros é o erro mais comum de quem tenta aplicar o método sozinho.
| Critério | O que o método exige |
|---|---|
| Dividend yield mínimo | Pelo menos 6% ao ano, considerando a média dos últimos pagamentos |
| Consistência histórica | Empresa precisa ter pagado dividendos de forma recorrente, não só em um ano isolado |
| Endividamento | Preferência por empresas com dívida baixa ou controlada |
| Setor de atuação | Preferência por setores mais estáveis e previsíveis, menos sujeitos a ciclos bruscos |
| Liquidez | Ação precisa ter volume de negociação suficiente para entrar e sair da posição sem dificuldade |
Vale lembrar também que, no Brasil, existe um piso legal para a distribuição de lucros. A Lei das Sociedades por Ações (Lei 6.404/76, no artigo 202) determina que, quando o estatuto da empresa é omisso sobre o tema, o dividendo obrigatório mínimo é de 25% do lucro líquido ajustado. Isso não significa que toda empresa vai bater os 6% de yield que Bazin pedia, mas ajuda a entender por que a distribuição de dividendos no Brasil tem uma base legal e não depende só da boa vontade do conselho.
Exemplo prático de cálculo
Vamos deixar isso concreto. Imagine uma ação que pagou R$ 2,00 por ação em dividendos somando os últimos 12 meses. Aplicando a fórmula, temos o seguinte resultado.
Preço teto = R$ 2,00 ÷ 0,06 = R$ 33,33
Isso quer dizer que, pelo critério de Bazin, essa ação só entraria na carteira se estivesse sendo negociada a R$ 33,33 ou menos. Se o preço de mercado estiver em R$ 28,00, por exemplo, ela passa no critério do preço teto. Se estiver em R$ 40,00, ela fica de fora, mesmo que a empresa seja excelente, porque o retorno em dividendos naquele preço já não atinge os 6% mínimos exigidos.
É esse tipo de ação hoje em setores como energia elétrica e transmissão, historicamente bons pagadores de dividendos no Brasil, que costuma aparecer nas planilhas de quem aplica o método. Taesa, por exemplo, é frequentemente citada em projeções de mercado como uma das companhias com yield na casa de 7% a 8% ao ano, o que ilustra bem o tipo de papel que passaria no filtro de Bazin, dependendo do preço do momento.
Vale a pena usar só o método Bazin?
O maior valor do método Bazin não é a fórmula em si, é o hábito que ele cria. Nunca comprar uma ação sem antes calcular quanto ela te devolve pelo preço que está sendo cobrada.
Como aplicar isso na prática
Quem quiser usar o método Bazin como ponto de partida deve ir além de aplicar a fórmula uma única vez. O ideal é olhar o histórico de dividendos de vários anos, não só os últimos 12 meses, calcular o preço teto considerando uma média desse período, e só depois avaliar os fundamentos da empresa, como endividamento, geração de caixa e consistência de lucro. Esse cruzamento de informações é o que separa uma triagem simples de uma decisão de investimento bem embasada.
Vale lembrar também que, a partir de 2026, a tributação sobre dividendos mudou no Brasil, com retenção de imposto de renda na fonte para quem recebe valores altos de uma mesma empresa no mês. Isso não muda a lógica do método Bazin, mas é mais um fator a considerar no planejamento de quem vive ou pretende viver de renda de dividendos.
Por isso, o método Bazin funciona melhor como ferramenta de estudo do que como sistema pronto de decisão. Montar uma carteira de dividendos que realmente faça sentido para o seu momento de vida envolve olhar perfil de risco, horizonte de tempo, diversificação e planejamento tributário, e esse é justamente o tipo de análise que um consultor de investimentos ajuda a estruturar.
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